Desvios na Paisagem – Pedro Victor Brandão, 2012

Publicado na exposição Desvios na Paisagem, Portas Vilaseca Galeria, 2012.

A exposição apresenta sentidos pictóricos a partir de alterações nos procedimentos do sistema fotográfico, trazendo o olhar do público para paisagens criadas em tempos dilatados. Há o desvio do domínio do visível de seu aspecto objetivo. O conjunto de séries aponta para questionamentos sobre permanência, urbanidade seletiva, visibilidade, acaso e a natureza manipulável da imagem técnica hoje. Os trabalhos foram desenvolvidos entre 2008 e 2012 e são parte de uma pesquisa maior sobre os diversos processos de geração, construção e entendimento das imagens. A observação do entorno se dá como processo contínuo e o uso da fotografia e seus dispositivos constroem campos de significação entre visualidade e memória.

Duas das cinco séries mostradas levam em conta o acaso em seus motivos de criação. Dupla Paisagem é apresentada aqui em três dípticos. Cada um deles compreende um lapso de tempo de dez anos, em que o ano inicial é a data da captura da imagem e o ano final corresponde ao ano em que o filme foi revelado e teve suas cópias ampliadas. Nesse período de latência, colônias de mofo foram cultivadas dentro das bobinas. Essa série é como um engenho contaminado em que traços do passado são sobrepostos por essa variável biológica, produtora de resultados imprevisíveis: rizomas nas paisagens-teste (lua ou sol, céu, encosta de morro, e alguns fotogramas velados) desfiguram totalmente o sentido indicial, numa ocupação caótica planejada, mas não controlada.

Outro procedimento auto-organizado é utilizado para criar Vista para o Nada. Mostro duas imagens dessa série em que a sugestão de paisagem pode levar o leitor a imaginar possíveis cenas. Não há nenhum instante retratado. A imagem surge da interação de um líquido revelador entre um negativo e um positivo de filmes fotográficos instantâneos vencidos e previamente velados pela luz. Com originais de 9×12 cm, paisagens químicas tomam dimensões fractais ao serem ampliadas em até 1400%.

Do químico para o numérico, a série Não Civilizada também estreita os laços da fotografia com a pintura num momento de realização liquefeita em bits. Em nove impressões quero lembrar que a arquitetura também tem seus prazos de validade. São paisagens de um tempo que nunca existiu, ainda que seja verossímil. Qualquer traço de ocupação civilizatória é removido numa operação de ressíntese, compilada por um plugin; e aplicada como uma série de retoques em que busco construir a visibilidade de uma ordem inexistente (tanto num passado não habitado ou num futuro distante, já sem ruínas).

clock_gettime(CLOCK_REALTIME, &perf_tmp);
perf_edge_points -= perf_tmp.tv_nsec + 1000000000LL*perf_tmp.tv_sec;
// fill edge_points with points that are near already filled points
// that ensures inward propagation
// first element in pair is complexity of point neighbourhood
vector<pair<int, coordinates=””>> edge_points(0);
get_edge_points(data_points, edge_points);
size_t edge_points_size = edge_points.size();</pair<int,>

(Um trecho do código do algoritmo Resynthesizer)

Essa série reflete sobre a ordem urbana atual aplicada com o choque, definindo uma urbanidade sem margens, como se todas as subjetividades tivessem que passar por um centro de operações. O uso e o entendimento dos espaços urbanos são condicionados à criação de uma imagem de estabilidade falsa, tão virtual quanto os retoques processados digitalmente.

Também pensando nos processos de apagamento, desenvolvo desde 2010 a série Curta, composta por fotografias não fixadas e expostas à luz ultravioleta, partindo de uma investigação sobre perenidade e esgotamento de práticas sociais persistentes no contemporâneo. O suporte fotográfico que se deteriora com agilidade serve como metáfora para a incerteza (ou desconfiança) dos conceitos impressos nele. Na imagem apresentada aqui abro o escopo dessa série para a discussão sobre territórios especulados. Na imagem, temos uma vista do centro da cidade de dentro do canteiro de obras do Museu do Amanhã, empreendimento importado como uma nave hipertecnológica que, quando estiver pronta, promete levar o espectador para o futuro ano de 2061. Este museu é icônico para a operação urbana consorciada “Porto Maravilha”, atualmente tida como a maior parceira público-privada da América Latina.

A chamada “requalificação urbana” associa empreiteiras e um banco federal a várias esferas da administração pública municipal e as novas características da região serão definidas exclusivamente pelo mercado imobiliário, levando em conta a expulsão de moradores pobres para garantir a permanência frente ao mar de uma elite de novos moradores-proprietários, além de turistas extasiados que chegam de navio. Títulos de investimento imobiliário aquecem o mercado numa legítima venda do espaço público, ao mesmo tempo em que novas ruínas se anunciam. Uma vez completamente apagada, a imagem funciona como signo frágil do que foi um presente de comodificação de um território público.

Por último, exponho instantes de queda iminente, congelados em WYBINWYS (traduzido como “o que você compra não é o que você vê”). Esse título vem de uma brincadeira com o acrônimo WYSIWYG (o que você vê é o que você obtém), que em computação, caracteriza toda e qualquer interface de software amigável, em que a edição que um determinado usuário faz na tela corresponde ao resultado final do arquivo. Atrás de uma película refratora aproveitada de monitores quebrados estão cenas em que a força da gravidade é determinante. A película impede que as pequenas fotografias sejam vistas de frente. Sem um esforço de visão periférica, um observador apressado pode somente perceber um suporte precário. Talvez haja aí uma negação ao poder de sedução da imagem para contestar seu lugar num mercado de ambiguidades.

Todas as cinco séries criam uma demanda de leitura. Procuro verter tempos e espaços para confundir a pura objetividade fotográfica e apontar a desconstrução do instante. Deixando de lado as realidades que a fotografia poderia confirmar, junto com suas capacidades representativas, busco fazer o leitor atentar com mais cuidado para os defeitos e qualidades sutis das imagens e dos imaginários que o cercam.