Textos

A precariedade que vem (que veio) – Pedro Victor Brandão, 2020

O que segue aqui é um ensaio composto por parte da minha fala junto à performance de Dora Selva e às falas de Tanja Baudoin e Steffania Paola durante o segundo dia de “o trabalho trabalha trabalha”, exposição organizada por Natália Quinderé e Luisa Marques no Fosso, em 6 e 7 de abril de 2019. Na ocasião eu fiz um comentário geral sobre a precariedade que vem com os desalentos criativos que o capitalismo contemporâneo nos oferece frente a observações sobre experimentos sócio-econômicos. Na oportunidade de um novo convite feito por Natália e Luísa para escrever para este número da Teteia, uma publicação que vive como um site, este texto é povoado de referências que foram importantes para mim e para os debates que ocorreram na série de falas, levando ao final x leitorx para outros caminhos além das situações de apropriação do trabalho cognitivo, características das nossas interações em rede.

Adentrar a escola do valor – Leonardo Araujo Beserra, 2019

Não se quer dizer que saber administrar o dinheiro é gerar a autonomia necessária para a autogestão. Também não se quer dizer com isso que não necessitamos de dinheiro. O que se diz é: há um mundo abstrato, completamente criptografado, sendo erguido há mais de vinte anos nas frestas, rachaduras e porões da internet. E que este mundo deve ser, antes de qualquer coisa, compreendido, pois ele é fundador dos mundos por vir, e somente depois de o entender será possível dominá-lo, no sentido de usá-lo com destreza suficiente para gerar outros mundos possíveis.

Sorry to bother you – André Pitol, 2018

Termino essas considerações com o diálogo estabelecido com a produção de Pedro Victor Brandão – mediada por sua fala e suas referências. É recorrente a indicação de que seus tópicos centrais giram em torno dos tópicos de paisagens políticas e econômicas contemporâneas, pesquisas sobre economia e as manipulações da imagem técnica, contextos sociais de precarização e escassez, assim como de especulação e produção de riquezas.

Entrevista a Leandro Muniz, 2018

LM – Você poderia comentar o projeto que enviou para o Pivô Pesquisa?

PVB – Enviei um projeto pensando em continuar minhas investigações sobre a ideia de “paisagem econômica” e também para produzir novos trabalhos da série Tela Preparada (2012). Comecei um conjunto novo dessa série a partir da apropriação de displays usados em estandes de conserto de telas de celulares, um tipo de lixo eletrônico abundante no Centro e na região da Santa Efigênia, próximos ao Pivô. Dentro dos circuitos eletrônicos que compõem as telas há metais raros como platina, paládio, ouro, prata, entre outros. Esse conjunto de trabalhos, chamado Sem Conserto, é uma arqueologia do descarte inapropriado.

Herança futurística da Cidade Olímpica – Laura Burocco e Pedro Victor Brandão, 2017

Cada estação levanta uma questão: a praça Mauá vem representando a revitalização e o desastre “museificado” do capitalismo especulativo/ espetacular carioca; a ex Zumbi dos Palmares evoca o tema da moradia e da desapropriação da dignidade das pessoas que originariamente ocupavam o porto; o galpão da Ação Cidadania mostra a falta de um verdadeiro compromisso com a memória e a identidade; no Jardim do Valongo há e denúncia à imposição por parte da Prefeitura de um espaço que, além de não ter ligações com a herança africana da região, marca uma linha de continuidade com um processo civilizatório higienista que começou com Pereira Passos no início do século 20 e que encontra a sua continuidade durante o mandato do ex-prefeito Eduardo Paes (2004-2016). O Circuito se encerra no Galpão da Gamboa apontando a pergunta sobre o destino dos achados das escavações; seja pelo valor histórico-cultural seja pelo valor econômico; repropondo a pergunta que já tinha sido levantada em relação as vigas do elevado da Perimetral que, em 2013, misteriosamente sumiram.

Tela Preparada – Fernando Ticoulat, 2016

Considerando as múltiplas maneiras que a internet molda nossos relacionamentos sociais e comerciais, Pedro Victor Brandão aborda com apurado espírito crítico as interfaces que mediam o vasto universo de zeros e uns, bits e bytes do espaço virtual. De nosso celular ao caixa 24 horas, mais do que mero dispositivos luminosos, tais interfaces (e o que reproduzem) são a maior forma simbólica de nossa era. Longe de serem livres de intencionalidade e consequências, estes artefatos, apesar de inanimados, criam determinados comportamentos. Cada ferramenta oferece aos seus usuários uma maneira específica de ver o mundo e interagir com os outros, de acordo com os valores e aspirações – benignas ou malignas – depositadas em cada uma delas.

Especulações n’A Quinta Renda – Pedro Victor Brandão, 2016

O primeiro eixo, que gerou o filme-ensaio A oferta não equivale à procura, foi observar algumas obras da Odebrecht na Cidade do Panamá. A que mais nos chamou a atenção foi a Cinta Costera III, um viaduto marítimo bizarro, que cancela a linha do horizonte e coloca em risco o status do Patrimônio da Humanidade do Casco Viejo, o centro histórico da Cidade do Panamá. As fases I, II e III estão concluídas, mas ainda está planejada uma continuação, com a fase IV.

[…]

O segundo eixo, que resultou numa série fotográfica chamada Cynthia nos vê de perto, funciona como uma espécie de contraponto por se tratar um experimento de auto-vigilância, utilizando uma câmera destinada a fotografar animais.

Sobre exo-economia – Pedro Victor Brandão, 2016

O que determina a propriedade sobre os recursos naturais exo-econômicos? Quais são os riscos de enviar escavadeiras remotas ao espaço sideral procurando por água, platina, paládio e outros metais raros? Essa empreitada trará recursos para comunidades acadêmicas que estudam cosmoquímica e mineralogia? Vai gerar uma renda básica universal? Ou seria um banco interplanetário para investidores selecionados?

Soft Power ou A Vontade Inadiável de Fazer o Bem – Agência Transitiva, 2015

2101 da era Pop: repetiu-se. Comeram a fruta. Mordiscadas nas camadas de carne alcançam o osso espinhoso. Foi quando uma cortina de desumanidade maior que os mares caiu sobre todo o mundo. O urso agarra o touro pela longa cauda. A base tão fraca leva a pirâmide ao colapso. Fim da soberania do metal, uma nova era de tempestades elétricas teria começado. Milhões de toupeiras revelarão uma precoce primavera através de uma corrente em blocos, despertando a Entidade das profundezas.

Depois da Fonte – Maíra das Neves e Pedro Victor Brandão, 2014

Depois da Fonte propõe uma nova nascente para o jorro de riquezas. Propõe também outro modo de administração de recursos produzidos coletivamente. Depois da Fonte borra as fronteiras entre público e privado, e põe em prática modos de produção e financiamento colaborativos, não hierárquicos e não especulativos. Depois da Fonte não represa, e sim distribui.

Sobre Bitcoin – Maíra das Neves e Pedro Victor Brandão, 2014

Apresentado durante a implementação de the þit. O Bitcoin (฿) é uma tecnologia e uma moeda corrente baseada em computação distribuída. Ele é descentralizado, digital e global. Bitcoins são criados sem controle de bancos ou Estados, são negociados online e podem ser...

“A lenda de Thyth, o gigante” ou “O que jaz sob the þit” – Kadija de Paula, Maíra das Neves e Pedro Victor Brandão, 2014

O jovem Förster conhecia essas plantas. As Donnerbarte são as sempre-vivas, e a Schlehe é um arbusto espinhento conhecido por produzir frutinhas para um tradicional licor. Mas ele nunca ouvira de seus poderes especiais de proteção, ou que um dia foram comuns em muitos telhados. Superstição, esses textos devem ser mesmo bem antigos, pensou. O segundo fragmento:

“(…) e assim, nesse dia, eu celebro meu novo teto. Aqui hei de me manter distante dos olhos dos homens, dos olhos do poder. Aqui hei de ser livre para viver como quiser, e seguir com minha prática. O povoado onde vivi nos últimos cinquenta anos já não é mais seguro. Já estou muito velha, ninguém se importa comigo. Mas agora que a pobre Anna Spiekermann morreu de forma tão trágica, não posso arriscar ser caçada também. Não faz muito tempo, homens como esses deixaram os corpos dos rebeldes apodrecendo nas gaiolas de Münster, lá no alto, para todos verem. Não! Eu não serei caçada. Vejo uma cortina de desumanidade maior que os mares cair por sobre todo o mundo. Lugar feliz agora é só aqui onde viverei, sozinha, com as plantas que protegem e curam a mim e minha querida amiga, Geneviève.”

Da visão computacional – Pedro Victor Brandão, 2013

Os arquivos brutos dos live-streamings ficam acumulados em massa nos servidores do twitcasting.tv no Japão, submetido aos padrões de governança da informação e às leis de direitos autorais de lá, sob uma cessão que o usuário faz quando diz “sim”1. Uma notícia recente mostrou que o Rio de Janeiro é monitorado por 700 mil câmeras2, sejam elas privadas, instaladas voluntariamente por condomínios, associações de moradores e proprietários contratantes de serviços de segurança particular; ou públicas, administradas por secretarias e departamentos de segurança através de licitações para compra de equipamentos e implementação de centros de controle. Dá uma média de uma câmera para cada nove habitantes. Já não está tudo ao vivo?

Estamos diante de um grande problema de edição.

Como exportar: cultura e opulência? – Pedro Victor Brandão, 2013

Apresentado na residência do prêmio TAC – Terra UNA Com trechos apropriados de ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil por suas drogas, e minas… Lisboa: Na Officina Real Deslandesiana, 1711; e Como exportar para o Brasil: guia prático sobre o processo de...

Os novíssimos novíssimos – Elvira Vigna, 2012

Publicado no blog Estudos Lusófonos (http://etudeslusophonesparis4.blogspot.com.br/), organizado por Leonardo Tonus. Fiz uma pergunta, com meus olhos, a cada um dos 22 artistas da Novíssimos, uma exposição anual organizada pela galeria do IBEU do Rio de Janeiro há 42...

Civilização como Barbárie – Julia Baker e Eduardo Baker, 2012

Publicado na edição 16 da Revista GLOBAL Uma recente propaganda da empresa Petrobrás vinculada na mídia impressa mostrava uma representação aérea do Rio de Janeiro na qual as favelas haviam sido digitalmente retiradas dos morros. Parte da população se manifestou...

Desvios na Paisagem – Pedro Victor Brandão, 2012

A exposição apresenta sentidos pictóricos a partir de alterações nos procedimentos do sistema fotográfico, trazendo o olhar do público para paisagens criadas em tempos dilatados. Há o desvio do domínio do visível de seu aspecto objetivo. O conjunto de séries aponta para questionamentos sobre permanência, urbanidade seletiva, visibilidade, acaso e a natureza manipulável da imagem técnica hoje. Os trabalhos foram desenvolvidos entre 2008 e 2012 e são parte de uma pesquisa maior sobre os diversos processos de geração, construção e entendimento das imagens. A observação do entorno se dá como processo contínuo e o uso da fotografia e seus dispositivos constroem campos de significação entre visualidade e memória.

reverência, subversão – Pedro França, 2011

publicado no lançamento do álbum e exposição de gravuras [edições] | UM, editado pelo Estúdio Baren com a Portas Vilaseca Galeria. nove artistas e a velha tradição da gravura 1) meio Eis por que esse texto é mais longo do que deveria ser: porque a gravura é, sempre...

A pintura antifurto de Pedro Victor Brandão: política como arte no contexto de crise econômica mundial – Marcelo Neder Cerqueira, 2011

Vamos falar então do assalto dos bancos. Como seria um “dispositivo antifurto” adequado contra os especuladores? Poderia ser o assalto ao caixa eletrônico e a nota manchada de tinta, de alguma forma estranha, outro lado distorcido, que fala à ação criminosa, irresponsável e arbitrária, agora sim, cometida pelos bancos e pelo mercado financeiro? Neste caso, poderíamos ler a Pintura Antifurto, de Pedro Victor Brandão, e a sua Ocupação Cofre, como possíveis dispositivos estético-expressivos a instrumentalizar nossa criatividade e apurar nossa sensibilidade na crítica da ideologia e na busca por alternativas? Bom, não podemos manchar as notas virtuais que os especuladores jogam no futuro, porque elas não existem. Mas podemos denunciar a mancha constitutiva do capital, que como já dizia Marx, “nasce banhado em sangue”.

A Grande Onda – Raphael Fonseca, 2011

Podemos interpretar esse trabalho através da relação entre arte e política. Pedro Victor pôde fotografar individualmente notas manchadas pelo “líquido antifurto” presente em alguns caixas eletrônicos. Na tentativa de se violar a estrutura da máquina, geralmente com a utilização de explosivos, é liberado um líquido de cor magenta que impregna o papel-moeda e, por consequência, devido à determinação recente do Banco Central, o transforma em mero papel. A imagem do objeto resultante de um crime é transformada em arte. Aquilo que legalmente não tem mais valor financeiro volta ao seu estado inicial; elevado ao estatuto artístico, novamente poderá vir a ter valor, mas já dentro do mercado da arte. Somando à ironia deste imagem, o artista permite que o público leve para casa, gratuitamente, uma partícula do mosaico. Estes espectadores se tornam colecionadores e, devido à não reposição diária destes exemplares (assinados e serializados em seu verso), podem já especular sobre os valores possíveis para suas pequenas obras de arte.

Pintura Antifurto – Bernardo Mosqueira, 2011

No dia 20.10.2011 a Casa França-Brasil promoveu a mesa redonda sobre a Pintura Antifurto, realizada dentro na Ocupação Cofre, pela qual artistas mostram seus trabalhos numa sala de 2,40 m² sem função definida desde a transformação em Centro Cultural desta construção...

Entrevista a Gilberto de Abreu, 2011

Criar um valor onde não há pode trazer efeitos surpreendentes. Todo esse processo se traduz numa expressão social furtiva que deixa no rastro um novo “produto” do qual eu me aproprio pra criar o trabalho. Destaco somente a parte rosa, que faz a nota perder seu valor, nas outras áreas, fica uma mascará numa opacidade de 6%. É um trabalho pra testar limites da legalidade na arte.

esquecer, explodir, assinalar – Bernardo Mosqueira, 2010

Brandão torna explícita a luta frustrada pela fossilização do tempo. É ainda a velha luta do homem contra seu fim inevitável. Mas a transformação fortalece! O monumento institucional com todas suas forças de conservação não vence a vida que corre. São os liquens que colorem o cinza monumental criado a eternizar suas intenções ideológicas de origem. São as imagens que “findas, muito mais que lindas, ficarão”.