Sobre exo-economia – Pedro Victor Brandão, 2016

 

Publicado em inglês na revista virtual Between Crowds and Empires
(organização de Robin Resch), em 2016 e em português na
revista Das Questões, v.6, n.1 (EXTREMOPHILIA, organização de Fabiane M. Borges), em 2018.

Recursos Planetários
Em Abril de 2012 uma empresa lançou uma coletiva de imprensa. O material apresentando era um pouco confuso, assemelhando-se às páginas de uma ficção científica. A empresa chama-se Planetary Resources e na grande recepção aos jornalistas no Museu da Aviação, em Seattle; afirmou poder a partir de 2014, “ganhar acesso aos recursos naturais extraterrestres minerando asteroides em órbitas próximas à Terra”.1

A partir de um discurso de abundância redentora versus escassez paralisante, o cofundador da empresa – Peter Diamandis – promete “garantir a prosperidade humana acessando os vastos recursos do espaço”, trazendo a ideia de colonização extraplanetária revigorada, em volta de uma geração de investidores muito tolerantes ao risco, como Eric E. Schmidt and Larry Page (ex-CEO da Alphabet Inc. e cofundador da Google Inc., respectivamente). Em uma das páginas visitadas, há a estatística de que um asteroide de 500 metros de diâmetro contém cerca de 174 vezes a produção anual global de platina2. No site http://www.asterank.com, é possível saber que o asteroide 2011 UW158 tem um valor estimado de 30 bilhões de dólares, sendo o sexto mais rentável3. Tratando os mais de 81 mil asteroides perto da órbita da Terra como uma ameaça à vida, mas também como uma fonte geradora de recursos primitivos nunca antes recuperados com máquinas, a empresa alega estar diretamente alinhada com as políticas da NASA.

Outras iniciativas vêm surgindo: a Moon Express e a Deep Space Industries tem realizado campanhas direcionadas para seus lançamentos futuros, em renderizações vistosas, relatórios, lançamentos de sondas de reconhecimento e pesquisas associadas até então aos Estados Unidos e a Luxemburgo. Esses dois países saíram a frente para rever as bases do Outer Space Treaty, de 19674. Luxemburgo segue desde fevereiro de 2016 forjando leis com essas empresas, enquanto os Estados Unidos passou pelo seu congresso, em dezembro de 2015, o United States Commercial Space Launch Competitiveness Act5”, que reconhece o direito de cidadãos estadunidenses a possuir asteroides que tenham sido apropriados. Permite também que empresas explorem e recuperem recursos fora da terra.

Depois de ler e discutir esses materiais com outras pessoas, entre cientistas e artistas, muitas questões vieram. O que determina a propriedade sobre os recursos naturais exo-econômicos? Quais são os riscos de enviar escavadeiras remotas ao espaço sideral procurando por água, platina, paládio e outros metais raros? Essa empreitada trará recursos para comunidades acadêmicas que estudam cosmoquímica e mineralogia? Vai gerar uma renda básica universal? Ou seria um banco interplanetário para investidores selecionados?

Embora este cenário descrito esteja avançando nos últimos 4 anos, as instituições jurídicas que regem este novo circuito de acumulação primitiva são opacas. Como aponta Şapera, em um dos primeiros artigos que evoca o termo “exo-economia” fora do contexto pseudo-científico6, “até agora, este debate estava no domínio da filosofia política, mas irá tornar-se uma questão urgente a ser resolvida. A corrida por recursos planetários poderá representar um dos mais intensos desafios legislativos, políticos e intelectuais que enfrentamos até agora. O resultado deste debate poderia ter um impacto extremamente importante, sendo capaz de marcar o início de uma era de ouro de prosperidade para toda a humanidade.”7

Ficção

Esta imagem não é nova, podemos recuperá-las na literatura estadunidense da década de 50, quando o gênero da ficção científica funcionou de motor para o imaginário da Guerra Fria. Issac Asimov, em um dos seus contos integrantes da série I, Robot traz o assunto quando “Gregory Powell, com a paciência de um sábio explicando um problema de eletrônica a um idiota, replicava: – Estou apenas dizendo que, de acordo com as especificações, esses robôs são equipados para realizar o trabalho de mineração nos asteroides, sem necessitar de supervisão humana. Não devemos vigiá-los. – Muito bem. Escute só, adepto da lógica! – retrucou Donovan, contando nos dedos cabeludos. – Um: o novo robô passou em todos os testes realizados no laboratório da fábrica. Dois: a U. S. Robôs garantiu que passaria nos testes práticos de funcionamento em um asteroide. Três: os robôs não estão passando nos referidos testes. Quatro: se não passarem, a U. S. Robôs perderá dez mil créditos em dinheiro sonante e cerca de cem milhões em reputação. Cinco: se eles não passarem e nós não conseguirmos explicar por que motivo tal coisa aconteceu, é possível que sejamos obrigados a dar adeus a um bom emprego. 8

Alguns anos depois, Will Stewart (pseudônimo de Jack Williamson), publica a série de contos Settee, em que uma espécie de antimatéria (matéria contra-terrena, CT) vira motivo de uma corrida espacial envolvendo uma crise energética, uma missão pessoal e diplomacia interplanetária9. E ainda, Robert A. Heilein, considerado por muitos como o escritor decano da ficção especulativa publica o romance The Rolling Stones, em 1952, em que uma família de turistas chega ao cinturão de asteroides e se depara com uma intensa atividade de mineração de metais radioativos; a família vende as crias de um animal marciano para os mineradores (flat cats, que se reproduzem descontroladamente dentro da nave), e então decidem ir ver os anéis de Saturno.10

Não por acaso, as ficções que vemos a ponto de serem realizadas hoje, também podem ser recuperadas muito antes, através uma arqueo-antropologia sobre as economias instrumentais dos ameríndios. Eliade conduz uma análise elementar quando indica que os “povos ‘primitivos’ trabalhavam o ferro meteórico muito tempo antes de aprender a usar os minerais ferrosos terrestres. Além disso, sabe-se que antes de descobrir a fusão, os povos pré-históricos tratavam certos minerais como se fossem pedras, ou seja, consideravam-nos como matéria-prima para a fabricação de objetos líticos. Uma técnica parecida vinha sendo aplicada até uma época relativamente recente por alguns povos que ignoravam a metalurgia: eles trabalhavam o ferro meteorítico com martelos de sílex, modelando objetos cuja forma reproduzia fielmente a forma dos objetos líticos. […] Quando Cortéz perguntou aos chefes astecas de onde eles tiravam as suas facas, eles apontaram para o céu. Tanto os maias do Yucatán e os incas do Peru, os astecas utilizavam exclusivamente o ferro meteorítico, ao qual atribuíam um valor superior ao do ouro. O mesmo se passava com os maiatas do Yucatán e os incas do Peru.11

Um experimento prático na Cratera de Colônia

A partir dessa investigação fui convidado a elaborar uma oficina para alunos da Escola Municipal de Vargem Grande dentro de um projeto que intercede arte e ciência. Concebido por Daniel de Paula (artista) e Leonardo Araujo (crítico de arte), o projeto gravidade – [espécies de espaços] teve sua pesquisa inicial focada na especificidade do contexto geológico e patrimonial da Cratera de Colônia, definida pelos propositores como uma localidade no “distrito de Parelheiros no bairro de Vargem Grande na cidade de São Paulo, é uma estrutura geográfica quase circular de montanhas que formam um vale com cerca de 3,6 km de diâmetro. Essa cratera foi formada especificamente através da queda de um corpo celeste (asteroide) a cerca de 35 milhões de anos atrás, o qual, até hoje, não se pode, por falta de estudos científicos, saber sua procedência nem estado físico, se foi a queda de um corpo congelado, se de formação rochosa ou um meteoro ferroso. Ela foi descoberta por meio de estudos por satélites em 1961, seu estudo mais aprofundado se realizou somente a partir de 1990 e sua habitação se iniciou em 1988, hoje totalizando cerca de 45 mil pessoas ocupando praticamente um terço da área da cratera.”12

Com um programa de oficinas, visitas, ativações de espaços dormentes e escutas sociais envolvendo artistas, cientistas e cidadãos em geral, o projeto tem se desenvolvido durante o ano de 2016 como o ponto de partida para uma elaboração institucional mais sólida, muito além dos produtos esperados no contexto de um projeto de arte. Daniel e Leonardo abriram um convite para realizar essa oficina com os jovens da Escola Municipal de Vargem Grande. E eu resolvi abrir essa pesquisa na forma de uma aula sobre exo-economia e a elaboração de um roteiro para vídeo. O objetivo da proposição foi ativar a imaginação especulativa em quatro encontros com uma turma de seis jovens com idades entre 11 e 13 anos, onde apresentei os conceitos de abundância e escassez tendo como referência a mineração em asteroides e o atual estágio de esgotamento dos recursos naturais frente a crises econômicas mundiais. No último dia da oficina, usamos uma impressão agigantada de um fragmento do meteorito de Toluca (localizado no México, um siderito do tipo IAB, composto de 91% Ferro e 8,1% de Níquel) para caminhar pelas ruas da cidade e gravar um filme, que foi assistido por todos no dia seguinte. Após a exibição do filme abrimos uma conversa sobre futuro e nessa oportunidade cada jovem comentou não somente suas impressões sobre a oficina, mas também suas intuições sobre esse possível mundo de abundância generalizada, onde emprego, renda, salário e até mesmo o dinheiro foram cogitados como obsoletos.

Um depoimento, em especial, capturou a minha atenção. Bianca, de 12 anos comentou primeiro sobre o parque que frequenta para brincar com os amigos e intuitivamente se apropriou de uma crítica ao crescimento exponencial: “Você viu que o bosque… Lá só tem areia e alguns brinquedos. O nosso bairro é muito carente nessas coisas. Imagina o parque que deve ter lá em São Paulo, no Ibirapuera…. Eu fico louca, porque no nosso bairro vem muita gente pesquisar por causa da cratera, mas o nosso bairro é muito carente… Imagino o futuro com mais dinheiro, pra que as pessoas arrumem casa, não ter que viver de aluguel, que as contas abaixem, que nada fique tão caro assim. E eu espero mesmo que um dia Vargem Grande melhore, porque se melhorar, eu vou continuar aqui pra sempre. E também tem gente que acha que vida é dinheiro, mas a vida não é dinheiro, porque tem outras formas de viver. Vi um vídeo sobre um cara que era médico ou cientista, ele vivia muito bem, era super-rico. Ele largou tudo pra morar na floresta. Ele come frutas, ele toma banho na cachoeira, ele não está nem doente. Ele é ótimo. Se a vida for sem dinheiro, a gente pode negociar… Se você tem peças de roupa que você não quer mais. Você vai no mercado, troca, o mercado vai trocar na fábrica por outra coisa, a fábrica vai fazer de novo, vai ficar ótima a roupa. Nem tudo é dinheiro”.

No futuro imaginário da Bianca, só vai fazer sentido minerar asteroides se ela puder brincar no parque à noite, se puder pintar as casas da sua rua, se ela conseguir ir pra faculdade. Embora pareça muito distante, essa disputa de narrativas entre uma jovem que mora numa das regiões menos favorecidas de São Paulo, a maior cidade do Brasil, no meio de um golpe de Estado jurídico-parlamentar; e uma corporação transnacional prestes a “romper a fronteira” não sai da minha cabeça. Um novo desafio do comum está na nossa frente e imagino que vamos precisar mais do que sorte para entender isso.

Pedro Victor Brandão é artista. Vive e trabalha no Rio de Janeiro.

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1 http://www.planetaryresources.com/2012/04/asteroid-mining-plans-revealed-by-planetary-resources-inc/
2 http://www.planetaryresources.com/asteroids/#mining-delivery
3 http://www.asterank.com/
4 De acordo com o Outer Space Treaty, a “exploração e uso do espaço sideral, incluindo a Lua e outros corpos celestes; deve ser conduzido para o benefício e o interesse de todos os países, independemente do nível de desenvolvimento científico ou econômico; sendo incumbência de toda a humanidade” (Parte 1, A, Art. I). E ainda, “a Lua e seus recursos naturais são herança comum de toda a humanidade”. (Parte 1, seção E, Art. 11).
5 https://www.congress.gov/bill/114th-congress/house-bill/2262/text
6 Até então, o termo “exo-economia” vinha sendo relacionado a uma corrente de teorias especulativas sobre o espaço sideral e um possível “Alien Venture Capitalism” e experiências fora do corpo.. http://exopolitics.blogs.com/exopolitics/2014/05/exoeconomics-how-inner-earth-can-mentor-us-to-achieve-economic-freedom-and-money-less-abundance.html
7 Şapera, Andrei. “Towards Exoeconomics – Developing an off-planet economy and its implications.” Bucareste: SOREC. Revista Œconomica: , issue 2; 2014
8 Asimov, Isaac. “Catch that rabbit!” Nova Iorque: Street & Smith, col. Astounding Science Fiction; 1944
9 Stewart, Will. “Settee Shock” Nova Iorque: Street & Smith, col. Astounding Science Fiction; 1949.
10 Heilein, Robert A. Heilein. “The Rolling Stones”. Nova Iorque: Scribner; 1952.
11 ELIADE, Mircea. “Forgerons et alchimistes.” Paris: Flammarion, col. “Homo-Sapiens”; 1956.
12 http://gravidadespcs.tumblr.com