“A lenda de Thyth, o gigante” ou “O que jaz sob the þit” – Kadija de Paula, Maíra das Neves e Pedro Victor Brandão, 2014

escrito e apresentado durante o desenvolvimento do projeto the þit, publicado
na compilação TCNXMNSM (organização: Fabiane M. Borges)

Em um tempo muito distante, quando as árvores do Haard1 eram ainda intocadas, viveu esta velha senhora. Com sua coruja de estimação, ela morava em uma modesta cabana de pedra escondida por uma cerca de árvores espinhosas.

Muitas gerações depois, no mesmo bosque, viveu um jovem Förster2 que amava a sensação de ficar sozinho na floresta. Certo dia, após uma longa meditação no Hochsitz3 ele ouviu um estrondo na direção do Teufelstein4·. Correu até lá o mais rápido que pôde, ao chegar encontrou muita poeira no ar, como se a pedra gigante tivesse se movido! No meio da nuvem de poeira, viu algo brilhante no chão: uma antiga caixa brilhante, feita da mais linda pedra. Nela encontrou alguns manuscritos, as folhas bem finas e velhas. A maior parte já podre, mas alguns trechos eram legíveis. Ele olhou ao redor para se certificar de que estava só. Desdobrou trêmulo os pedaços delicados. Com bastante cuidado, ele puxou um primeiro, que dizia:

“Tempestade de trovão. Nuvens se enrolam no firmamento negro enquanto ventos tenebrosos torcem e arrancam árvores. Raios explodem em cores tantas. Eles são sua lança. De tempos em tempos ele descarrega o seu poder de caos. Geneviève está aqui dentro tranquila, graciosamente destrinçando um rato. Eu também nunca temo tempestades. Nunca temo trovões ou raios. Tenho minhas Donnerbarte5 no telhado e uma cerca de Schlehe. Com elas o gigante nos reconhece, ele nunca nos esmagaria em uma noite de tempestade.”

O jovem Förster conhecia essas plantas. As Donnerbarte são as sempre-vivas, e a Schlehe é um arbusto espinhento conhecido por produzir frutinhas para um tradicional licor. Mas ele nunca ouvira de seus poderes especiais de proteção, ou que um dia foram comuns em muitos telhados. Superstição, esses textos devem ser mesmo bem antigos, pensou. O segundo fragmento:

“(…) e assim, nesse dia, eu celebro meu novo teto. Aqui hei de me manter distante dos olhos dos homens, dos olhos do poder. Aqui hei de ser livre para viver como quiser, e seguir com minha prática. O povoado onde vivi nos últimos cinquenta anos já não é mais seguro. Já estou muito velha, ninguém se importa comigo. Mas agora que a pobre Anna Spiekermann6 morreu de forma tão trágica, não posso arriscar ser caçada também. Não faz muito tempo, homens como esses deixaram os corpos dos rebeldes apodrecendo nas gaiolas de Münster7, lá no alto, para todos verem. Não! Eu não serei caçada. Vejo uma cortina de desumanidade maior que os mares cair por sobre todo o mundo. Lugar feliz agora é só aqui onde viverei, sozinha, com as plantas que protegem e curam a mim e minha querida amiga, Geneviève.”

“Oh gigante, gigante da floresta, gigante dos ventos, gigante do céu e das estrelas. Oh, gigante no rato, gigante no gato, gigante na marmota, gigante no touro, gigante no urso e gigante na coruja! Cada olho iluminará sua visão e cada osso levantará seu corpo. Cada coração e cada espírito girando e levantando pedras gigantes como se fossem um punhado de areia. Novamente o gigante há de se levantar do subterrâneo, fortalecido por esses cantos e por essa carne que lhe ofereço (…)”

O jovem Förster sentiu um arrepio gelado por toda a espinha. Não por causa do gigante, ou da velha que parecia ser uma bruxa, afinal ele conhecia esses personagens de histórias antigas. Ele arrepiou por Geneviève, pois sabia que as corujas não são o que parecem. Mesmo assim, corajoso que só ele, respirou fundo e continuou a leitura, ainda sentado ao lado da Teufelstein, sob o lusco-fusco de um fim de tarde de outono. O próximo trecho parecia descrever uma luta feroz:

“(…) gritos, cabeças e desespero. A fera imensa, com a força de mil homens e uma fome sem fundo. Com um rabo longo, úmido e enroscado com algas, seu corpo coberto de mini criaturas famintas. Suas mãos monstruosas, maiores que um homem adulto, jogavam árvores e pedras enormes ao longe, para alcançar Thyth, o gigante. E então se movia, deixando pra trás pegadas tão grandes como montanhas ao contrário. Pessoas corriam em pânico, gritando e suplicando por suas vidas. Enquanto isso, os dois gigantes atiravam pedras do tamanho de igrejas um contra o outro. De uma colina a outra, seus golpes – parte não legível – o monstro recém-nascido perseguiu Thyth por muitas terras, das ensolaradas às nevadas, ávido por seu sangue. Água da chuva juntava em seu rastro profundo, traçando novas fronteiras. Thyth estava machucado, fraco, doente das feridas e do coração. Ele nunca viveria sob um mestre, jamais seria um escravo. Thyth, o gigante de mil espíritos, lutaria até o fim. Duas noites depois, sob um céu sem lua, as duas criaturas colossais se encontraram no Haard8 e golpearam-se com toda a força. Thyth rugiu raivoso e com seu último raio acertou a mandíbula do outro gigante, mas não o derrotou. Exausto, seus mil espíritos já começavam a abandonar sua formação. Os poderes do gigante evaporaram num movimento centrípeto, transformando-o em um pedregulho e colocando-o para dormir nas profundezas subterrâneas.”

Então Thyth, o gigante do caos, de lanças e raios destruidores, fora derrotado. O jovem Förster ainda não conseguia imaginar que tipo de criatura derrotara tal gigante. Quem, ou o que, poderia ser poderoso o bastante para vencer Thyth? Curioso e empolgado, continuou a leitura:

“Eu lembro como se fosse ontem. Quem poderia se esquecer de um evento tão terrível? Depois da briga, solo e pedras estavam revirados, as árvores dilaceradas, as nuvens pesadas em luto. Nenhum som se ouvia, nem de pássaro, nem mesmo o das folhas ao vento. A natureza parecia estupefata enquanto as pessoas celebravam. É que Thyth sempre foi um ser difícil de se conviver. Com esse novo governante era mais fácil lidar, ou ao menos era no que eles pareciam acreditar. Mas a natureza é sábia. Uma dia eles aprenderão.”

“Por mais que o Thyth tentasse revidar, era difícil escapar dos tentáculos daquela colossal criatura marinha em forma de pirâmide, cuja cabeça coroada era sustentada por incontáveis almas, uma por sobre as outras. Tal criatura fora evocada, formada e alimentada por almas fracas. É um titã capturador de sonhos. Ele andará por essa terra por muitos e muitos séculos.”

“Ele tem todo poder agora, ele decide e governa tudo. Onde quer que haja homens, haverá seu poder. Em princípio, a promessa do fim da guerra de todos contra todos parece boa. Ele convence até a natureza a ir contra si mesma, é a evolução humana. Ele se elevou por sobre tudo que vive. Pobres almas fracas, eu vejo pais e filhas, trabalhadores e mendigos, jovens e velhos, todos abdicando de sua liberdade por medo do caos. Em todas as terras, até nas terras mais remotas, todos se renderam a este monstro cruel.”

E que monstro é esse, divagou o jovem Förster. Poderia ser real? Será que ainda vive e governa hoje? Outro pedaço:

“No início dos tempos, no início da natureza, nasceu Thyth. Era uma força gigantesca composta de uma multitude de forças individuais em harmonia. Certa feita, um pequeno grão de areia se esqueceu de que era apenas uma parte do gigante, esticou seu pescoço, olhou para baixo e ao seu redor, e declarou a si mesmo um gigante. Daquele dia em diante uma guerra sem fim começou, todos lutando contra todos. Foi quando o gigante adormeceu pela primeira vez. Grande ignorante foi aquele que primeiro serviu a um outro. Oh querido Thyth, o gigante dos espinhos! Reis, príncipes e padres sempre temeram a vós! Eles sempre temeram o poder dos mil espíritos livres em vós. Na sua tirania, eles protegiam os ricos e poderosos da fome insaciável do gigante. Thyth, o gigante da diversidade, gigante por natureza, tantos querem sua destruição!”

O último fragmento estava agora em suas mãos. Seu coração cheio de confusão e de sentimentos conflitantes. Em seu espírito, uma sutil sensação de incerteza. A luz do dia já havia quase se dissipado. Ele já não conseguia enxergar, foi atrás da lanterna que estava no Hochsitz, mal podendo esperar para ler.

Lá no topo da colina, acendeu a lanterna. Era o único feixe de luz visível na região. Era também uma noite sem lua. Ao começar a ler, notou: parecia uma profecia.

O urso agarrará o touro pela longa cauda.
A base tão fraca colapsará a pirâmide.
Fim da soberania do metal, uma nova era de tempestades elétricas começará.
Milhões de toupeiras revelam uma primavera precoce através de uma corrente em blocos que despertará o gigante.”

Lenda recuperada e traduzida por
Maíra das Neves e Pedro Victor Brandão
com colaboracão de Kadija de Paula e
Bettina Lehnert – Arquivo da Cidade de Oer-Erkenschwick.
Lida pela 1ª vez ao público por Nadine Molatta e Ralf Rieder na
celebração de abertura do parque the þit no centro de Oer-Erkenschwick, Alemanha, em 2014.


1 Bosque em Oer-Erkenschwick, a cidade onde the þit existiu.

2 Guarda florestal.

Uma estrutura com cadeira em um alto ponto de observação.

Pedra do diabo.

5 Barbas do trovão.

6 A última morta pela inquisição na região do the þit,1706.

7 Cidade do noroeste da Alemanha onde houve a rebelião dos Anabatistas, em 1533. Eles resistiram em regime comunal por mais de ano, até seus líderes serem torturados e assassinados em praça pública. Seus corpos foram expostos e deixados para apodrecer em gaiolas no alto da Catedral de Münster como aviso para outros possíveis rebeldes. As gaiolas permanecem até hoje no mesmo local.

8 Um bosque em Oer-Erkenschwick